Perto de completar um ano, Casa Feminina e LBT coleciona histórias de recomeço

Sílvia Cristina Ramos, de 50 anos, está lutando para realizar um sonho. Estuda, diariamente, para passar em um concurso público que vai acontecer em março. Esse objetivo também significa uma guinada na vida dela, que há um ano morava nas ruas de Curitiba e era usuária de drogas.

“Quero crescer e agora eu sei que eu posso”, diz Sílvia, que foi acolhida na Casa de Passagem Feminina e LBT (pessoas que se identificam com o gênero feminino), aberta em março de 2015 em Curitiba. Única no Brasil a ofertar um serviço especializado para mulheres em situação de rua, a unidade é coordenada pela Fundação de Ação Social (FAS) e recebeu neste período cerca 800 pessoas, entre lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros.

“Preciso estar melhor. Já estou e, até o final do ano, pretendo visitar o meu filho, que não vejo há anos. Ele vai ficar orgulhoso de mim”, acredita Sílvia.

A criação de um espaço específico para atender as mulheres e o público LBT em situação de rua surgiu pela necessidade de reordenar o serviço e melhorar a qualidade no atendimento ao público em situação de risco e vulnerabilidade social. “Nosso objetivo é que casa seja um ambiente de passagem para que essas pessoas se reestabeleçam, com todo o apoio necessário e especializado. E tem funcionado. Essas mulheres agora acreditam em si mesmas, têm sonhos”, explica a presidente na Fundação de Ação Social, Marcia Oleskovicz Fruet.

A Casa atende pessoas de 18 a 59 anos. No local, as mulheres recebem refeições, podem passar a noite e participam de oficinas. A unidade possui 50 vagas. “Nossa população é bem flutuante, mas muitas mulheres já passaram por aqui. Elas apresentam transtornos psicológicos, casos de alcoolismo, HIV e drogadição. Aqui recebem acolhimento e cuidado”, explica a coordenadora do espaço, Vanessa Ferreira Lang. A equipe da Casa Feminina é formada por educadores sociais e assistentes sociais, além de receber o apoio da Secretaria Municipal de Saúde, que faz todo o acompanhamento das usuárias.

“Aqui elas se sentem iguais e elas entendem que a rua não é mais uma opção”, contou Vanessa.

Maria Simone da Conceição, de 38 anos, está há quase três meses na casa de passagem. Desempregada, ficou vagando por três dias na Rodoviária de Curitiba sem saber para onde ir até ser acolhida. “Só tenho a agradecer a toda equipe da casa. Me deram a mão quando eu me senti mais vulnerável e sem saber o que fazer da minha vida. Aqui temos regras, nos ajudamos mutuamente, somos uma família”.

A unidade fica na região central da cidade, bem como outros espaços que atendem de maneira individualizada homens, crianças e adolescentes e idosos. Desde 2013, o número de vagas para o atendimento à população em situação de rua em Curitiba aumentou 82%. A única unidade que ofertava este serviço, até 2012, deu lugar a dez novos espaços e atualmente são 18 espaços (entre oficiais e conveniados) e mais de 1,1 mil vagas.